MÚSICA | REVELAÇÃO (TALVEZ) SUPERLATIVA (PROPOSITAL)

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Existe aquele momento em que você precisa se render aos superlativos comuns a qualquer lançamento pretencioso e direcionado estratégicamente por canais de formação de opinião, críticos, publicações superficialmente alternativas mas absolutamente corporativas entre outras ações publicitárias via web-celebridades que inexistem ao alcance do wi-fi.

Entre as milhões de diferentes formas de se projetar um release bem orquestrado para resultar em um número de impacto em visualizações iniciais, os superlativos são os que melhores funcionam junto aos entediados. Hoje por sinal funcionou comigo, e de imediato culpo o café, por estar consideravelmente fraco.

A mineira Sara Alves Braga, responsável pelo projeto Sara Não Tem Nome – nome irreverente, tendenciosamente engraçado e digno da produção de qualquer agência publicitária – promove o lançamento do seu álbum de estréia, o precocemente exaltado e forte candidato a nova virose digital, Ômega III. A proposta do título do álbum está presente nos benefícios do mais famoso ácido graxo comercial. Sob a promessa de ser ideal para o cérebro e o coração, o álbum Ômega III por fim resume-se apenas em uma gordura auditiva inofensiva, projetada sob uma perfeita propaganda de marketing.

Você, se atento, definitivamente ouviu outras dezenas de propostas de vozes susurrantes femininas, excessivamente delicadas em uma harmonia quase infantil, as quais sempre – SEMPRE – me obrigam a questionar, afinal, trata-se da sexualização exagerada ou uma estranha delicadeza projetada? Seja como for, de acordo com os índices de recepção do mercado fonográfico nacional, a fórmula é um sucesso.

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Sara Não Tem Nome não é de todo mal, assim como também não se trata de uma revolução musical – quem secretamente não gostaria de ser? Talvez seja apenas mais um exemplo perfeito onde é perceptível observar todas as fórmulas de mercado sob uma produção extremamente profissional. E se considerado sob a ótica de um projeto tão bem feito, resta-me apenas reconhecer o mérito de todos os fruto ainda a serem colhidos.

Uma revelação “surpreendentemente” jovem. Voz feminina, frágil, alguém irá gritar doce, mas eu prefiro reafirmar como infantil. Letras saborosamente poéticas, construídas sob diferentes fragmentos concretos e distorções publicitárias gravitacionando ao redor do cotidiano de um mesmo lugar comum. Fotos pretenciosamente despretenciosas. Produção estrangeira credenciada. Promoção orquestrada em veículos de reconhecida “inovação”, sempre previamente selecionados e vezes financeiramente acordados. Futuras parcerias extracurriculares elogiosas. Bilíngue portfólio comercial. E claro, apadrinhamento, filiação e amizade em diferentes posições dentro do mercado fonográfico e circuito artístico. Luz aos que ainda desconhecem a fórmula.

Gosto muito da delicadeza de Lulina. Sua voz vezes susurrada explode em versos dignos dos poemas de Manuel de Barros, multiplicando o sabor de sua fauna e flora incomum. Sinceramente, eu não gostei muito da estréia de Mallu Magalhães. A proposta inicial bilíngue autodidata folk nunca me conquistou, mas graças a sua evolução artística – muito se deve (sem dúvida) a curadoria de Marcelo Camelo – Mallu acabou por construir uma carreira artística admirável e original. Sara Não Tem Nome pode assegurar-se dos erros passados e talvez ampliar os seus novos domínios. Talvez evolua para uma proposta menos previsível. Talvez seja apenas mais um arquivo digital na biblioteca do Soundcloud.

Com a masterização de Rob Grant (Tame Impala), o álbum Ômega III tem potencial para se tornar uma febre nas próximas semanas. A produção e os arranjos são merecidamente elogiosos e ultra profissional. Até quando interpreta canções em inglês, Sara equilibra-se com a maestria de quem coordenou e ordenou cada detalhe com extrema dedicação, não existe sequer um único exemplo de risco capaz de comprometer o investimento em nome de qualquer ousadia.

Destaco em Ômega III as boas canções “Dias Difíceis”, “Atemporal” e “Água Viva”.

Descrédito todo superlativo relacionado ao lançamento. Ao seu julgamento segue a estréia da jovem relevação surpreendente.

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