CINEMA | A DEMÊNCIA ORIGINAL DE HALLAM FOE

Hoje eu finalmente tive a oportunidade de assistir Hallam Foe. O drama escocês lançado em 2007 surpreende. Mas não trata-se apenas de um filme independente e pretencioso, carregado de miséria humana e modernidade fria, pelo contrário, o grande drama presente em Hallam Foe está na demência de sua história impensável e absolutamente original.

Hallam Foe é um garoto perturbado com o suicídio de sua mãe e o novo relacionamento de seu pai, um arquiteto endividado que após o falecimento de sua esposa, assume um novo relacionamento com a sua secretária. Foe acredita que não houve suicídio, e a secretaria é na realidade a responsável pelo assassinato de sua mãe. Perfeito demais não é mesmo? Drama, suspense, mistério… Mas onde está a demência? Onde está a originalidade?

Primeiro que Foe é um voyeur. O grande passatempo do órfão materno é observar casais transando quando possível e demais atividades cotidianas menores, mesmo que para isso seja necessário invadir alguma propriedade privada, escalar telhados ou arrombar portas. Com os acontecimentos a maior obsessão de Foe torna-se observar o novo relacionamento de seu pai, e registrar todas as suas percepções amargas em um dos seus inúmeros diários delirantes. Quando ameaçado, Foe pinta o rosto como um guerrilheiro tropical, utilizando a maquiagem de sua falecida mãe, e vestindo o que me parece ser uma carcaça de um gambá empalhado, avança sobre os inimigos com se estivesse em guerra. Estranho?

Esse é apenas o começo. A obsessão de Foe ao tentar provar que sua madrasta é a responsável pela morte de sua mãe, não irá impedi-lo de transar com ela. E na explosão irracional de incoerência absoluta, o jovem herói decide abandonar a casa dos pais em busca de um recomeço. E agora todos prontos para mais um looping?

Distante do pai e abandonado a própria sorte, Foe encontra ao acaso uma mulher que lhe parece ser a falecida mãe. Tomado por uma admiração doentia, ele decide persegui-la de todas as formas possíveis, até conseguir construir uma forma de relacionar-se com ela. O relacionamento apesar de improvável, torna-se romântico. Mas entre o romance doentio, o abandono dos pais, a obsessão voyeur e o relacionamento de amor e ódio em relação à madrasta, é necessário atentar-se ao fato de que tudo na história de Hallam Foe possui o seu devido lugar e explicação. E seria um desprazer esclarecer se existe ou não, um verdadeiro assassino entre tantos relacionamentos cruzados e impensáveis.

O drama escocês é sem dúvida um dos roteiros mais originais e doentios com o qual eu tive contato recentemente. Em cada novo ato, uma impensável reviravolta soma-se a perturbada trama, incitando os espectadores a questionar os limites da perda, do fetiche, do proibido e do amor. Não trata-se de um grande filme, mas de uma surpreendente produção independente, cujo brilhantismo do roteiro deve-se a obra de Peter Jinks.

Hoje estou recomendando um filme lançado em 2007. Cinco anos atrás. Poderia obviamente comentar sobre os incríveis lançamentos da semana, ou quem sabe revisar algo relacionado aos últimos meses. Na realidade não existe uma ordem. Uma regra. Tudo acontece no seu devido tempo. E desde que aconteça, está tudo bem.

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