CINEMA | DESCONSTRUINDO O OSCAR DE DICAPRIO

Baseado em fatos reais. Fatos históricos. Esse é o descritivo objetivo do The History Channel, hoje renomeado (simplificado) apenas para History. Quem conhece e admira temas históricos e científicos aprova. Conhecimento puro.

Responsável por captações espetaculares da vida selvagem, e reconhecidamente respeitado pela audiência global, o National Geographic é um sucesso unanime. Imaginá-los juntos, é inegavelmente um sucesso inquestionável.

Leonardo DiCaprio merece um Oscar. Finalmente este ano ele está muito próximo de conquistá-lo, graças a sua “marcante” participação no exagerado “O Regresso”.

Se você desavisado desconhece “O Regresso”, trata-se da união do The History Channel e o National Geographic em uma mega produção hollywoodiana.

Agora vamos esquecer o DiCaprio por um momento.

Obra da ganancia do premiado cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (vencedor do Oscar de direção por “Birdman”), e o premiado diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (vencedor do Oscar de fotografia por “Gravidade” e “Birdman”), a proposta de “O Regresso” a princípio carrega em essência uma dupla fascinante história de superação. Em breve palavras, trata-se do argumento perfeito para garantir o próximo Oscar de Iñárritu-Lubezki. Uma coroação desmerecida.

A saga de vingança de Hugh Glass (DiCaprio) impressiona. São três desnecessárias horas de duração em repetidas provações de sobrevivência em um ambiente gélido e inóspito. Glass é responsável por guiar uma expedição de caçadores em uma região selvagem, repleta de nativos enfurecidos com o sequestro de um membro da tribo, abismos mortais e ursos agressivos. É claro que em um momento de colapso, todos os elementos dramáticos se colidem. Índios nativos cruzam com a expedição de Glass em um ataque fulminante, explosivo. A fuga dos sobreviventes desafia os limites sobre-humanos, graças a bela natureza gélida e mortal. Por fim, coroando o colapso de elementos improváveis (lembre-se, tudo é baseado em uma história “real”), Glass é parcialmente mastigado por um enorme urso selvagem.

Mentira. Estamos longe do fim dos elementos dramáticos. John Fitzgerald (interpretado pelo ótimo Tom Hardy), é um integrante ganancioso na complicada expedição de Glass. Eles por sinal vivem a se desentendar, afinal Glass tem um filho adolecente mestiço, fruto de um romance passado com uma índia nativa. Fitzgerald odeia nativos. Depois de quase ser devorado por um urso e sobreviver, o corpo semi-vivo-semi-morto de Glass é brilhantemente deixado aos cuidados de dois adolecentes (sendo um o seu filho), e claro, o seu inimigo mortal, Fitzgerald. Se você está irritado por considerar esse descritivo exagerado e revelador… Calma. Tudo o que descrevi está no trailer, sim, está no trailer, acredite. “O Regresso” está muito a frente deste princípio.

hardy

A sorte de Glass inexiste. Que figura histórica! Fitzgerald por outro lado, aproveitando-se do infortúnio de seu opositor decide agir, acabando por matar o filho mestiço de Glass sob o testemunho ocular do pai imobilizado, providenciando posteriormente o enterro vivo da única testemunha de seu crime, em uma cova rasa. Tenso. Mas absolutamente pouco explorado. Recomendo ao leitor a releitura deste parágrafo, afinal acredito, com todo o meu bom senso, ter determinado o momento crítico e dramático da obra.

Mas… Apresentando um fator de cura improvável para o ano de 1823 (ou qualquer realidade), Glass se recupera e inicia enfim “O Regresso”, uma busca implacável pela vingança de seu filho. Algo digno dos aureos tempos de Charles Bronson ou o presente momento de Liam Neeson. Fim do trailer.

“O Regresso” fascina pela superação e conquista. Glass vence um ataque de nativos, um clima agressivo e um urso mortal. Resta saber se irá vencer o seu inimigo, conquistando assim sua vingança existencial. Qual será o fim?

Iñárritu exagera na concepção de seu maior desafio. As filmagens de “O Regresso” mergulharam a equipe em um clima desumano. Todos, inclusive o grande astro DiCaprio, foram obrigados a suportar o rigoroso inversos. Rios semi-congelados, quedas e ferimentos reais, exaustão física coroada com o almoço de um alce morto, carne crua devidamente registrada. A talvez mais celebrada cena, o duelo entre DiCaprio e o urso selvagem (pensou por algum momento que poderia ser a morte do filho aos olhos do pai, então você é inocente aos olhos de hollywood), reflete apenas o resultado da mais moderna tecnologia disponível. Ou seja, fantasia hollywoodiana. Obrigado Spielberg!

Filmado em composições longas com bruscos movimentos de câmera, aproximando-se da técnica empregada em “Birdman”, Iñárritu afirma orgulhoso o uso de apenas luz natural. Mentira. Ao considerar o equilíbrio de cor azul presente na obra, é impossível não concordar com o pós tratamento digital das imagens. Ou talvez Iñárritu seja o diretor mais avesso ao seu personagem, pois todos os dias obteve a mesma tonalidade e luz que o universo é capaz de matematicamente prover.

Inovação, superação, fascínio… aos olhos desavisados.

Lubezki mereceu seus dois prêmios anteriores. Agora, por “O Regresso”, deveria se retratar publicamente. O filme não é ruim (apesar de cansativo), a fotografia é de fato bela, impressiona, mas deve-se totalmente a um verdadeiro mestre, o único Andrei Tarkovski (1932-1986).

Um curioso vídeo comparativo, publicado pelo russo Misha Petrick, compara cenas de “O Regresso” com filmes do mestre Tarkovski. Aos puros ingênuos, o mexicano Iñárritu e o seu parceiro cinematógrafo Lubezki realizaram um tributo ao cineasta russo, mas a homenagem escancara o plágio. São 17 exemplos, ângulos e enquadramentos do indicado ao Oscar deste ano em uma clara reprodução de “A Infância de Ivan” (1962), “Andrey Rublev” (1966), “O Espelho” (1975), “Stalker” (1979) e “Nostalgia” (1983). Não acredita?

O tom que predomina em “O Regresso” é semelhante as polaroides fotografadas pelo cineasta russo. Coincidência? Em entrevista à revista Film Comment (JAN/FEV 2015), Iñárritu afirma que “Andrey Rublev” é provavelmente seu filme favorito. Influências de “Dersu Uzala” de Kurosawa, “Aguirre, a Cólera dos Deuses” e “Fitzcarraldo”, ambos de Werner Herzog, são citados. “Apocalypse Now”, de Coppola – clara inspiração ao martírio de DiCaprio, fato.

E DiCaprio… Finalmente DiCaprio sofre ao ponto de nos convencer. Até onde o astro de hollywood é capaz de ir e filmar para conquistar o seu aguardado Oscar? Seja como for, todos os seus concorrentes diretos este ano são fracos – essa é a realidade – e a internet (assim como a academia) irá celebrar o seu momento em êxtase, sem dúvida. Surreal.

Lembre-se, você irá se impressionar durante a luta pela vida de DiCaprio contra o seu urso digital, muito mais do que a tensão envolvida na cena do assassinato de seu filho, e a razão é única, DiCaprio é um péssimo aluno de humanas, mas um excelente aluno em exatas.

Aos curiosos, este é o verdadeiro urso digital de DiCaprio.

Se por roubar mestres é garantia de ser perdoado, Lubezki, Iñárritu e DiCaprio merecem um Oscar.

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