CINEMA | O VENDEDOR DE PASSADOS: UMA TENTATIVA MORNA DE ADAPTAÇÃO LITERÁRIA

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Por Juliana Teles, exclusivo para o MESSCLA.

Sou entusiasta do cinema nacional desde sempre. Se tem uma bilheteria com a qual faço questão de contribuir é a das produções brasileiras. Não é preciso ser um profundo entendedor do meio para saber que ainda é um enorme desafio fazer cinema no Brasil. Talvez essa seja a segunda razão pela qual procuro prestigiar as nossas películas, a primeira é, sem dúvida a qualidade e a riqueza de muitas das produções que andam aparecendo por aqui, pelo menos, nas duas últimas décadas.

O lançamento de “O Vendedor de Passados”, produção de Lula Buarque de Hollanda despertou bastante o meu interesse: sou beletrista e leitora apaixonada de Agualusa, romancista angolano de prestígio no cenário da literatura lusófona e mundial atuais. O filme é, antes de tudo, uma adaptação do romance homônimo do autor, o que, por si só já me levaria à sala de cinema. Ademais, a questão desencadeadora da narrativa é, de fato, provocadora: O que você faria se pudesse alterar erros ou lembranças dolorosas do passado? Os dois protagonistas, Lázaro Ramos e Aline Moraes, são nossos queridinhos há tempos e já provaram em diversos trabalhos anteriores que merecem uma parada e um olhar mais cuidadoso para os seus trabalhos.

Estive em uma das salas do Kinoplex da paulistana Joaquim Floriano no final de semana de estréia (dia 22/05) e, após ter assistido ao trailer muitíssimo bem feito, minhas expectativas eram as melhores.

O filme é um encadeamento de frustrações: a adaptação do romance de Agualusa margeia o mau gosto, infelizmente. A delicadeza da profissão de Vicente (Lázaro Ramos) se perde por completo; a carga lírica do romance se dissolve diante de um enredo composto de cenas previsíveis e diálogos canastrões entre a personagem de Lázaro e Clara, de Aline Moraes, numa interpretação sisuda e morna.

Como Vicente chegou a essa profissão? O que faz um vendedor de passados? Até onde essa profissão poderia ser real? São algumas das questões que certamente rondam o espectador. Algumas delas não são respondidas e talvez um dos motivos que deixam de empolgar quem assiste ao filme seja justamente esse: como envolver-se e simpatizar-se com um enredo construído em torno de uma profissão tão pouco provável?

Além disso, o gênero da produção oscila bastante. O que, em princípio, era um drama, passeia aqui e ali pelo suspense e até pela comédia.

O enredo beira a ingenuidade ao assumir estar passos à frente de seu espectador, especialmente em relação ao suspense que envolve algumas relações, como a de Vicente e Clara; suspense esse que, claramente, não vinga.

vendedor de passados

Por fim, penso que uma obra excepcional como o romance de Agualusa mereceria uma iniciativa mais ousada. Para a decepção da espectadora aqui, as questões universais que constroem o enredo do romance, como: a verdade, a mentira, o passado e as dores do homem ao travar luta com todas elas, transforma-se em busca por uma verdade história desinteressante. Uma pena deixar a sala com aquela sensação incômoda de “é só isso mesmo?!”.

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